Imprensa

10-Mar-2016 00:00 - Atualizado em 03/03/2017 15:40

Outro 8 de março de luta

Em pleno século XXI, onde a mulher é a maioria da população (51% ante 49% de homens), o elenco de conquistas obtido nas questões de gênero ainda pode ser considerado restrito

,
Mais uma vez chegamos ao mês de março e seu dia 8, quando as atenções da mídia voltam-se todas para as questões das mulheres. Desde as primeiras comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, uma data que já se tentava criar oficialmente desde o século 19, foram muitas as celebrações e conquistas obtidas pelas mulheres na sociedade, desde o direito ao voto e à candidatura a cargos públicos até legislações que atendem especificamente o gênero.

Motivos para se comemorar, então? Claro, sem dúvida. Sempre. Acontece que, mesmo em pleno século XXI, onde a mulher é a maioria da população (51% ante 49% de homens), o elenco de conquistas obtido ainda pode ser considerado restrito. O fato de haver uma data institucionalizada - e até mesmo um mês todo de discussões em torno do tema - estamos longe de acreditar que exista igualdade de direitos entre homens e mulheres. Ou que estejamos perto de se chegar lá.

A participação da mulher em espaços e instituições variados como família, escola, igreja, mercado de trabalho e movimentos sociais ainda é muito inferior a dos homens. No mercado de trabalho, eles ficam com a maior fatia do bolo: são mais bem pagos, respeitados e reconhecidos. De acordo com o Boletim Mulher e Trabalho, elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), divulgado semana passada sobre o universo da região metropolitana de São Paulo, em 2015 o rendimento médio real das mulheres economicamente ativas foi de R$ 1.667, enquanto o dos homens chegava a R$ 2.245. O rendimento médio por hora das mulheres diminuiu 6%, caindo para R$10,25. Já o dos homens, passou para R$ 12,20.

Outro dado do mercado de trabalho é o fato de ser recorrente a concentração de ocupações das mulheres: ainda que mais e mais elas se qualifiquem (até mais do que os homens, eventualmente) e alcancem cargos de chefia, 80% delas exercem profissões de professoras, cabeleireiras, manicures, funcionárias públicas ou trabalham em serviços de saúde, atividades ainda hoje muito relacionadas ao "universo feminino".

Outras questões

Discutir sobre a mulher no mercado de trabalho pode parecer chover no molhado. Não é. Considerando-se que os movimentos feministas ainda engatinham se compararmos com os séculos e séculos em que o gênero masculino se sobrepôs e dominou por questões culturais e políticas, bater nessa tecla é cobrar uma sociedade mais justa para homens e mulheres.

Como parlamentar, durante três mandatos como vereadora em Sorocaba e outros três como deputada federal em Brasília, sempre pautei meu trabalho pela busca em ver o poder público reconhecer mais direitos para a mulher. Obtivemos importantes conquistas, como a Lei da Casa Abrigo (aqui em Sorocaba), a Maria da Penha (da qual participei da elaboração) e outras de minha autoria como a de Violência Doméstica, a do Assédio Sexual e a que garante atendimento imediato, multidisciplinar e gratuito às vítimas de violência sexual em hospital público ou credenciado ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Infelizmente, leis como essas nem sempre são devidamente aplicadas com o respeito e o rigor que merecem. Se por um lado precisamos de campanhas educativas para que crimes dessa natureza sequer sejam cometidos, de outro temos de fazer com que, nos casos recorrentes, as leis se cumpram, garantindo os direitos das vítimas.

Ainda hoje, os serviços e o preparo para o atendimento desses casos são bastante desorganizados. A Delegacia da Mulher, criada para que as vítimas tenham um atendimento especializado e adequado em caso de delitos sofridos, não tem a estrutura física necessária para isso e os profissionais que ali atuam nem sempre possuem preparo psicológico para tratar os casos. Além disso, suas unidades sequer funcionam 24 horas, como se os crimes contra a mulher não fossem, em sua maioria, cometidos à noite e nos finais de semana.

Outra necessidade é a ampliação do número de vagas em creches - um direito da criança, mas que beneficia a mulher trabalhadora, cada vez mais inserida no mercado de trabalho, seja por autovalorização profissional ou pela divisão dos gastos domésticos para a criação dos filhos. Em Sorocaba, na semana passada, muitas mães foram surpreendidas pela decisão irresponsável e sem planejamento da Prefeitura que diminuiu a carga horária das crianças que frequentam os Centros de Educação Infantil (CEIs). Como faz?

Essa divisão de tarefas entre homens e mulheres na sociedade, por sinal, é outro tabu nas discussões referentes aos direitos e deveres em família, por exemplo. A mulher ainda não tem poder sobre o próprio corpo quando se trata se interromper uma gravidez e, em algumas sociedades, o fato de ela evitar filhos sequer é aceito. A mulher raramente consegue fugir da dupla jornada, desdobrando-se entre os serviços do emprego, os cuidados com a casa e, muitas vezes, a condução quase que solitária da educação dos filhos.

Neste Dia Internacional da Mulher, neste mês de março onde homenagens e mais homenagens são feitas, precisamos refletir para a necessidade de dar novos passos adiante de todos esses preconceitos, tabus, estereótipos, tradições culturais e atrasos históricos que ainda dividem o mundo entre "umas" e "outros". E finalmente admitir que, diferente do que diz o papel, de que "todos são iguais perante a lei", bem sabemos que nós, mulheres, muitas vezes ainda somos tratadas como "mais iguais que os outros".

Deixe seu Recado