Imprensa

29-Mar-2016 00:00 - Atualizado em 03/03/2017 15:40

Prefiro a ditadura da democracia

Universidades apresenta uma diversidade de temas e ideias que, em tempos atuais, nos faria muito bem se viesse ao caso

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Uma das mais saudáveis características das universidades públicas é a acesso ao conhecimento, independente de área, crença política ou religiosa, cor, sexo, ou seja, há uma diversidade de temas e ideias que, em tempos atuais, nos faria muito bem se viesse ao caso. Em uma dessas oportunidades, percebi logo de cara que o tema era quente, apesar da imprecisão do relato em termos científicos. Um jovem sociólogo, doutorando da Universidade de São Paulo (USP), realizara um trabalho onde, com base em métodos estatísticos complexos verificou um senso comum que hoje se esconde no subterrâneo do já quente debate político-partidário.

O rapaz descobriu que os eleitores de baixa renda têm seu voto significativamente determinado pelo recente e inédito acesso a políticas públicas como o Bolsa Família. Pensei estar novamente diante de um crítico da inclusão social, que usa a ciência para alimentar o seu preconceito e o dos outros. De repente o jovem rapaz disse que isso era ótimo, pois representava amadurecimento democrático, que era fundamental que os diversos grupos sociais votassem em troca de políticas públicas que os favorecessem, fiquei entusiasmado, mas já faz um ano e pouco, entusiasmo com alguma coisa não está fácil para quem se pretende progressista, democrata, entre outros simplificadores adjetivos. Lembrou que esses grupos foram outrora comprados, com quadros de camisa de futebol, cestas básicas, telhas, cimento, contas de água.

Chamo a atenção para a importância atual do termo democrata, principalmente pelo flerte inconteste dos fatos atuais com aqueles que se tornaram dos mais nefastos de nossa breve história, a jornada de 21 anos de ditadura militar. Um ano antes do triste aniversário de 50 anos do golpe militar pelo qual passamos, aproveitei minha própria curiosidade sobre o tema e a de um grupo inesquecível de alunos para um projeto de extensão que consistia em assistir filmes sobre o assunto. Foram, pelo menos, uma quinzena de títulos que versavam sobre Jango, Getúlio, Prestes, JK, Marighella, Boilesen. Depois de tudo, assusta a semelhança da atualidade com fatos que ocorreram a JK, Getúlio e principalmente Jango. A escolha da corrupção como mote para a derrubada do governo, o apoio dos mesmos órgãos de imprensa, principalmente Globo e Folha de S. Paulo, que chegou a emprestar caminhões para as capturas da Operação Bandeirantes. Teremos novo pedido de desculpas em 2066?

A democracia é essencial para a camada mais vulnerável da sociedade, que vê mais que um partido, mas suas políticas públicas, atacadas na cortina de fumaça com a qual, novamente, a imprensa inebria os setores mais conservadores da sociedade. Ninguém, de qualquer índole ou partido, diz-se, ou até mesmo é, favorável à corrupção, mas a insistência sobre o tema, na verdade, esconde o pior e ainda persistente crime contra a população, que é a desigualdade social. Espero que não esteja certo, mas no meu mais íntimo pensamento, ainda acredito que os crimes fundamentais são: Bolsa Família, ProUni, REUNI, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos, Luz para Todos, Enem, Cotas, entre outros. Minha opinião se baseia no simples fato de que, assim como aqueles que inflaram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ainda temos em nosso País remanescentes desses, cujo bem-estar independe da tal democracia.

Rodrigo Vilela Rodrigues é professor, chefe do Departamento de Economia, da Universidade Federal de São Carlos - Campus Sorocaba

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